Pesquisa sobre a Tarifa Zero em Maricá-RJ
Esta seção apresenta os resultados da pesquisa intitulada:
“Tarifa Zero como Ferramenta de Política Pública: Impactos Sociais, Econômicos e Ambientais na Mobilidade de Usuários em Maricá – RJ”
Neste estudo, foi investigado como a implementação da Tarifa Zero (modelo próprio – quando a prefeitura presta o serviço) no município de Maricá-RJ transformou a vida dos seus cidadãos. A pesquisa, que abrangeu as dimensões do Tripé da Sustentabilidade (social, econômica e ambiental), oferece uma visão detalhada sobre o perfil dos usuários, os determinantes de sua satisfação e o papel da gratuidade como instrumento de justiça social e inclusão.
O objetivo da pesquisa foi entender de perto como a Tarifa Zero (ônibus gratuito) está mudando a vida das pessoas em Maricá. Buscou-se saber:
Quem está usando? (Perfil social e econômico)
Como o Sistema Funciona em Maricá?
Existem duas formas principais de oferecer o transporte gratuito:
Modelo Próprio: A prefeitura compra ou aluga os ônibus, contrata os motoristas e cuida de toda a operação.
Modelo Terceirizado: A prefeitura contrata uma empresa privada para fazer o serviço e paga a ela por quilômetro rodado.
Maricá adota o modelo Próprio. A pesquisa foca em como essa forma de gestão afeta o dia a dia e os resultados sociais.
Para garantir que os resultados utilizou-se a seguinte metodologia:
Onde: A pesquisa foi realizada em Maricá-RJ, cidade com cerca de 197.300 habitantes (IBGE, 2022).
Número de entrevistados: Entrevistou-se 385 pessoas que estavam usando o transporte coletivo. Este número foi escolhido para ter precisão estatística (95% de confiança, erro de 5%).
Quando: As entrevistas aconteceram entre os dias 18 e 21 de julho de 2025.
Onde foi a pesquisa: O local escolhido foi o Terminal Rodoviário de Maricá, considerado o ponto central de partida e chegada de todas as linhas urbanas e distritais, garantindo a abrangência dos usuários do sistema.
O Que Perguntou-se aos Usuários?
O questionário foi dividido em duas partes:
Perfil do Usuário: Perguntas sobre quem estava viajando (gênero, idade, raça, renda familiar, número de pessoas na casa e escolaridade).
Mobilidade e Opinião: Perguntas sobre a linha mais usada, como a pessoa se deslocava antes da Tarifa Zero (por exemplo, se usava carro ou pagava passagem) e qual era a opinião geral sobre a política de gratuidade.
Com esses dados, buscou-se analisar os impactos da Tarifa Zero, olhando para os pilares Econômico, Social e Ambiental.
O MUNICÍPIO DE MARICÁ-RJ
O município de Maricá, situado no litoral sudeste do Estado do Rio de Janeiro, é caracterizado por uma topografia singular, marcada por maciços costeiros (como as serras Calaboca e da Tiririca) e um vasto complexo lagunar interligado ao mar (incluindo as lagoas de Maricá e Jacaroá). Sua geografia inclui importantes praias oceânicas (Jaconé, Ponta Negra) e áreas de conservação, como o Parque Estadual da Serra da Tiririca e a Área de Proteção Ambiental (APA) de Maricá, que abriga o ecossistema de restinga e a comunidade pesqueira tradicional de Zacarias. A vocação natural da região é propícia à prática de esportes radicais e ao turismo (Prefeitura de Maricá, 2025).
Historicamente, o povoamento de Maricá remonta ao século XVI, com a doação de terras pela Coroa Portuguesa. O município, cujo nome deriva da árvore Mimosa sepiaria Benth, foi elevado à categoria de cidade em 1889. Sua história é enriquecida pela passagem de figuras notáveis, como o Padre José de Anchieta e, o naturalista Charles Darwin, que incluiu Itaipuaçu em seu roteiro de pesquisa da Mata Atlântica em 1832, criando o que hoje é conhecido como “Caminhos de Darwin” (Prefeitura de Maricá, 2025).
Nas últimas décadas, Maricá passou por grandes transformações. Inicialmente impulsionada pelo potencial turístico e pelo movimento de segunda residência após a construção da Ponte Rio-Niterói, a cidade experimentou um crescimento exponencial após a descoberta de gigantescos reservatórios no Pré-sal em 2006, o que gerou grandes receitas municipais (Rodrigues, 2023). Essa dinâmica resultou em um aumento populacional de 54,87% entre 2010 e 2022, atingindo 197.300 habitantes (IBGE, 2022). Este crescimento é atrelado a um conjunto de políticas públicas, como o transporte público com Tarifa Zero, o programa Renda Básica da Cidadania (RBC) pago em moeda social Mumbuca e o Passaporte Universitário, iniciativas que se tornaram fatores de atração e inclusão social (Prefeitura de Maricá, 2023).
Fonte: Prefeitura de Maricá-RJ, 2022.
Tarifa Zero em Maricá (RJ): A Experiência com Gestão Própria
Maricá, no Rio de Janeiro, é uma referência na Tarifa Zero (ônibus gratuito) no Brasil.
Como Tudo Começou
O programa nasceu de uma promessa política e da necessidade de acabar com o monopólio de empresas privadas que controlavam o transporte.
O Início (2013): A Prefeitura começou a lançar linhas gratuitas depois que as empresas privadas se recusaram a operar certos trajetos.
Criação da EPT (2014): Foi criada a Empresa Pública de Transportes (EPT) para operar o Tarifa Zero em paralelo com as empresas pagas.
Sistema 100% Público (2021): O contrato com as empresas privadas foi encerrado, e a EPT assumiu totalmente o serviço, garantindo a gratuidade para todo o município.
O Sistema Atual de Maricá
Maricá adota o Modelo de Gestão Própria (operado pela EPT).
Frota: O sistema conta com 157 ônibus (alguns próprios, outros alugados), operando em 49 linhas.
Tecnologia e Conforto: Quase todos os ônibus (91) funcionam sem catraca. Todos os veículos possuem ar-condicionado, GPS e câmeras de monitoramento.
Demanda: Em 2024, o sistema registrou mais de 38 milhões de viagens!
Mais que Ônibus: As Vermelhinhas
Maricá também integrou um sistema de mobilidade não motorizada:
Bicicletas Compartilhadas: As “EPT Vermelhinhas” oferecem bicicletas gratuitas integradas ao sistema de transporte coletivo urbano.
Estrutura: São 42 estações com 420 bicicletas para adultos, além de 10 estações com 100 bicicletas infantis.
Um Modelo Híbrido
Embora a EPT opere o Tarifa Zero de forma universal, o sistema de Maricá é classificado como parcial e híbrido:
Ônibus Gratuitos: Sim, os ônibus operados pela EPT são 100% gratuitos.
Vans Pagas: Vans complementares, que pertencem Mumbuca Transporte vinculada à Secretaria de Transporte, continuam circulando e cobrando passagem (R$ 3,70).
Uso Limitado: O uso gratuito dessas vans complementares é limitado a 60 viagens por mês (o que equivale a duas viagens por dia).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Tarifa Zero em Maricá: Quem Utiliza o Ônibus Gratuito?
A pesquisa em Maricá-RJ detalhou o perfil de quem usa o transporte gratuito para entender como a política impacta a vida dos moradores. Os resultados mostram que o sistema é fundamental para a população mais vulnerável.
1. O Perfil dos Usuários: Mulheres, Pretas e de Baixa Renda
O estudo confirmou que a Tarifa Zero é essencial para o grupo mais afetado pelas desigualdades sociais:
| Categoria | Dado da Pesquisa | O Que Isso Significa? |
| Gênero | 52,18% são mulheres. | As mulheres têm padrões de deslocamento mais complexos (várias paradas para trabalho, filhos, compras) e dependem mais do transporte público. Elas passam mais tempo se deslocando. |
| Raça | 71,4% se identificam como pardas ou pretas. | A política tem um forte impacto na equidade racial. Quando analisamos gênero e raça juntos, as mulheres pardas e pretas (grupos mais vulneráveis) são as mais dependentes do ônibus gratuito. |
| Renda | 82,6% das famílias vivem com até 2 salários mínimos. | Isso aponta para uma vulnerabilidade socioeconômica significativa. Para 8 em cada 10 usuários, o dinheiro economizado na passagem é fundamental para o orçamento familiar. |
2. A Disparidade de Renda: Mulheres Mais Prejudicadas
Ao cruzar gênero e renda, a diferença é clara:
Renda Mais Baixa (Até 1 Salário Mínimo): O número de mulheres nessa faixa é muito maior que o de homens. Isso indica que as mulheres são o grupo mais pobre da amostra e, por isso, o transporte gratuito é mais essencial para elas.
Renda Mais Alta: À medida que a renda familiar aumenta, a participação das mulheres no sistema de ônibus diminui . Por outro lado, a presença de homens é maior nas faixas de renda mais elevadas.
Conclusão: Os dados de Maricá reforçam a chamada “feminização da pobreza”. As mulheres, em especial as pretas e pardas, enfrentam a dupla barreira da desigualdade de gênero e de raça, o que as torna o principal público beneficiário da Tarifa Zero. O ônibus gratuito ajuda a mitigar o impacto da baixa renda, garantindo o direito à cidade para quem mais precisa.
Maricá: Baixa Renda, Maior Dependência e Maior Escolaridade Feminina
A pesquisa sobre a Tarifa Zero em Maricá-RJ aprofundou a análise, cruzando a renda e o tamanho da família com o gênero, e também investigou o nível de escolaridade dos usuários.
1. Renda e Estrutura Familiar: A Sobrecarga Feminina
Analisamos o quanto a baixa renda afeta o dia a dia das famílias em relação ao uso do ônibus:
Padrão de Baixa Renda: A maioria dos usuários de ambos os gêneros está concentrada na faixa de até 1 salário mínimo e vive em famílias pequenas (1 ou 2 pessoas). Isso confirma que o serviço é essencial para os mais pobres.
A Sobrecarga Feminina: A dependência feminina do transporte é constante, independentemente do tamanho da família.
Famílias Maiores: Mulheres de baixa renda continuam sendo as principais usuárias em famílias de 3, 4 ou 5 pessoas, enquanto a presença de homens de baixa renda diminui drasticamente nessas famílias maiores.
O Que Isso Indica: Com o aumento do número de pessoas em casa, a responsabilidade de cuidado (levar filhos, buscar compras, ir ao médico) recai mais sobre as mulheres de baixa renda, tornando o ônibus gratuito uma ferramenta crítica para gerenciar a rotina familiar.
2. Educação: Mais Estudo, Menor Poder Aquisitivo?
A relação entre educação e o uso do transporte gratuito revela uma desigualdade de gênero:
Mulheres com Mais Estudo Formal: As mulheres na amostra demonstram ter um nível de escolaridade formal mais elevado que os homens.
Ensino Médio Completo: As mulheres superam os homens.
Ensino Superior Completo e Pós-Graduação: As mulheres dominam estas categorias de maior instrução, sendo o número de formadas em Superior completo muito superior ao masculino.
Homens com Menor Escolaridade: Os homens se concentram mais nas categorias de Ensino Fundamental Incompleto (o nível mais baixo da amostra).
O Paradoxo da Mulher: Este resultado sugere que, em Maricá, as mulheres são mais qualificadas, investem mais na educação (chegando mais frequentemente à faculdade e pós-graduação). No entanto, o maior nível de estudo não se traduz em maior poder aquisitivo ou em maior autonomia de transporte (como ter carro próprio). Por terem salários mais baixos ou menos acesso a veículos, elas continuam sendo as que mais dependem do transporte coletivo gratuito.
O Perfil dos Usuários em Maricá: Idade e Nível de Estudo
A pesquisa de Maricá detalhou a idade e o nível de escolaridade de quem usa a Tarifa Zero, confirmando seu papel essencial para a força de trabalho ativa da cidade.
1. Nível de Escolaridade: Foco na Força de Trabalho
O perfil educacional dos usuários em Maricá é diferente da média brasileira, com uma concentração nos níveis intermediários:
Pessoas Sem Instrução (ou Fundamental Incompleto): A porcentagem de usuários nessa faixa é menor do que a média nacional.
Ensino Médio e Fundamental Completo: A maior concentração de usuários está aqui, indicando que o transporte gratuito é vital para pessoas com a qualificação necessária para entrar e se manter no mercado de trabalho.
Ensino Superior Completo: A porcentagem de usuários com faculdade completa é significativamente menor do que a média do Brasil.
O Que Isso Significa? O ônibus gratuito em Maricá é essencial para a força de trabalho que tem um nível de estudo intermediário. Essas pessoas precisam se deslocar para trabalhar e estudar, mas ainda não têm o poder aquisitivo que geralmente vem com um diploma superior para comprar e manter um carro.
2. Distribuição de Idade: Jovens e Pessoas em Idade Produtiva
A idade dos usuários mostra um padrão “bimodal” (com dois picos):
Jovens (21 a 30 anos): Este grupo representa uma das maiores fatias de usuários (20,8%). Eles dependem do transporte para ingressar na faculdade ou no primeiro emprego.
Idade Produtiva Avançada (51 a 60 anos): Este grupo também tem alta representatividade (20,8%), refletindo o uso contínuo para manter o emprego ou gerenciar as múltiplas responsabilidades familiares (o que é especialmente verdadeiro para as mulheres).
Em Resumo: O perfil etário confirma que a Tarifa Zero é o eixo central de mobilidade para a força de trabalho ativa e para os jovens que estão construindo sua vida profissional em Maricá.
Conclusão da análise socioeconômica: Tarifa Zero como Medida de Inclusão Social
Em Maricá, a Tarifa Zero é muito mais que transporte gratuito; é uma política de Inclusão Social.
O programa beneficia intensamente os grupos mais vulneráveis: mulheres pretas e pardas, e famílias de baixa renda.
Em um cenário nacional onde a cobrança de passagem agrava a segregação e as desigualdades de classe, raça e gênero, a gratuidade em Maricá surge como uma medida inovadora que busca atenuar essas barreiras e garantir o direito à cidade para todos.
Mobilidade antes e após a implementação da Tarifa Zero
Impactos da Tarifa Zero
Nesta seção, analisou-se como a Tarifa Zero em Maricá-RJ impactou o dia a dia das pessoas, olhando para os três pilares da sustentabilidade: social, econômico e ambiental.
1. O Crescimento do Sistema
A Tarifa Zero em Maricá foi implementada de forma gradual e continua crescendo para atender à alta demanda:
Em 2024: O sistema já contava com 47 linhas, 148 ônibus e registrou mais de 38,4 milhões de viagens!
Em 2025: O serviço foi expandido para 49 linhas e 157 ônibus (sem contar a frota de vans).
2. Impacto Social: Quais Linhas São as Mais Usadas?
Os usuários entrevistados mostraram que dependem intensamente das linhas que conectam as áreas mais distantes ao centro da cidade. As linhas mais utilizadas na rotina dos moradores pesquisados são:

Conclusão: A alta utilização dessas linhas urbanas e distritais reforça que o transporte gratuito é fundamental para garantir o acesso e a integração de todos os moradores de Maricá, especialmente aqueles que vivem fora do núcleo central.
O Impacto da Tarifa Zero em Maricá: Mudança Modal e Alívio no Bolso
Nesta análise, detalha-se como os moradores de Maricá se deslocavam antes da implementação da Tarifa Zero.
1. Como as Pessoas se Moviam Antes da Tarifa Zero?
Antes da gratuidade, a pesquisa já mostrava uma alta dependência do transporte coletivo e dos modos não motorizados:
Ônibus/Vans: Era o meio dominante para ambos os gêneros. As mulheres apresentavam uma dependência significativamente maior do que os homens.
Modos Ativos: As mulheres também andavam mais a pé e de bicicleta do que os homens.
O que isso indica? Antes da Tarifa Zero, as mulheres tinham maior vulnerabilidade e menos autonomia (menos acesso a carros e motos), dependendo mais do transporte coletivo pago e de viagens mais curtas a pé.
2. A Migração: Por Que as Pessoas Trocaram o Carro pelo Ônibus?
A Tarifa Zero provocou uma grande mudança, e o principal motivo foi a economia:
Foco na Baixa Renda: Cerca de 80% das pessoas que trocaram o carro pelo ônibus gratuito pertencem a famílias que vivem com até 2 salários mínimos. O maior pico de migração ocorreu nas faixas de 1 a 2 salários mínimos (45%) e até 1 salário mínimo (35%).
O que isso significa? Para a população de baixa renda, o custo de ter e manter um carro (gasolina, impostos, manutenção) era um sacrifício. A Tarifa Zero eliminou o custo do transporte e fez com que o ônibus se tornasse a opção economicamente mais viável.
3. Tarifa Zero como Alívio Financeiro
A política funcionou como uma “renda indireta”. O dinheiro que as famílias de baixa renda economizavam com o carro e a passagem do ônibus agora pode ser usado para necessidades básicas (alimentação, saúde, etc.).
Conclusão: A Tarifa Zero é uma ferramenta que não só garante o direito de ir e vir, mas também age diretamente no bolso dos mais pobres, além de gerar benefícios ambientais ao tirar carros das ruas.
Ganhos Ambientais e Sustentabilidade da Tarifa Zero em Maricá
A implementação da Tarifa Zero (TZ) em Maricá-RJ resultou em benefícios ambientais diretos, promovendo uma alteração no comportamento modal dos usuários.
Migração Modal e Seus Efeitos Mitigatórios
Os dados da pesquisa indicam uma migração significativa do transporte individual para o coletivo, com 6,8% dos entrevistados abandonando o carro e 3,6% abandonando a moto em seus deslocamentos diários. Essa mudança modal contribui diretamente para a redução das externalidades negativas tradicionalmente associadas ao transporte particular:
Mitigação do Congestionamento Viário: O menor número de veículos individuais em circulação otimiza o fluxo e a eficiência da malha urbana.
Redução de Acidentes: A substituição de veículos individuais por transporte coletivo resulta em maior segurança viária.
Redução de Emissões: O efeito da TZ na diminuição da frota particular em uso ativo contribui para a redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.
Corroboração por Experiências Nacionais
A eficácia da Tarifa Zero em Maricá é corroborada por resultados observados em outros municípios brasileiros:
Em Paranaguá-PR, a adoção da TZ esteve associada a uma redução de 40% nos acidentes de trânsito envolvendo carros, motos e bicicletas em um período de dois anos (Diário do Transporte, 2024).
Em São Caetano do Sul-SP, a política resultou na eliminação de 1.505 deslocamentos de carro por hora nas vias, com a consequente redução significativa do congestionamento urbano (Pante, 2025).
A literatura especializada reforça esse potencial, com estudos indicando que a Tarifa Zero é capaz de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 4,1% (Rodrigues, Da Mata e Possebom, 2024).
Conclusão: Em síntese, a migração do transporte individual motorizado para o transporte coletivo documentada em Maricá confirma o potencial da gratuidade tarifária em promover um modelo de mobilidade mais racional, seguro e ecologicamente benéfico. A Tarifa Zero transcende o aspecto de inclusão social, consolidando-se como uma política pública para a mitigação de externalidades negativas e o fomento de um desenvolvimento urbano mais sustentável e equitativo.
Impacto Econômico da Tarifa Zero
O benefício da Tarifa Zero (TZ) vai além da economia direta no bolso do passageiro; ela gera um impacto positivo em toda a economia local.
1. Alívio no Orçamento Familiar e Empresarial
Fim do Desconto do Vale-Transporte: Os trabalhadores relataram a suspensão do desconto do vale-transporte no salário. O dinheiro que antes era subtraído (exemplo: “Antes descontava R$ 100,00 do meu pagamento”) agora fica integralmente com o trabalhador.
Apoio ao Pequeno Empresário: Empresas de pequeno porte não precisam mais arcar com o custo do transporte para seus funcionários, aliviando suas despesas.
2. Estímulo ao Comércio Local
Dinheiro Redirecionado: A Tarifa Zero é vista como um fomento ao comércio, pois o dinheiro que era gasto em passagens é redirecionado para o consumo dentro do próprio município.
Exemplos Reais: Essa percepção é confirmada por experiências em outros locais: Paranaguá-PR registrou um aumento de 30% nas vendas do comércio após a implementação da TZ (Diário do Transporte, 2024).
3. Efeito econômico Positivo
Pesquisas em municípios brasileiros demonstram um impacto econômico da gratuidade: o transporte gratuito é capaz de elevar o nível de emprego em 3,2%, impulsionado tanto pela economia das empresas quanto pelo aquecimento do comércio local (Rodrigues, Da Mata e Possebom, 2024).
Em resumo, a Tarifa Zero não é apenas uma despesa para o município, mas um investimento que injeta dinheiro nas famílias de baixa renda e no comércio local, fortalecendo a economia da cidade.
O Que os Moradores Pensam da Tarifa Zero
A pesquisa em Maricá-RJ revela uma altíssima aprovação do ônibus gratuito, mas também aponta onde o serviço precisa melhorar para acompanhar o sucesso.
1. Aprovação Massiva: “Excelente” e “Maravilhoso”
A grande maioria dos usuários está extremamente satisfeita com a Tarifa Zero:
Aprovação Máxima: 70,91% classificaram o programa como “Muito Bom” ou “Excelente”.
Total Positivo: Se somadas as respostas positivas mais simples (“Bom”, “Legal”), a satisfação chega a mais de 87%.
As justificativas se concentram em três pontos-chave, mostrando que o benefício vai além do transporte:
| Eixo Temático | O que os Moradores Dizem |
| Impacto Socioeconômico e Dignidade | É um “socorro” que gera “mais comida em casa” e permite comprar “remédios”. Eliminar o custo da passagem é um aumento real na renda disponível da família. |
| Acesso, Inclusão e Empoderamento | É “fundamental” para o acesso ao trabalho (até mesmo ajudando desempregados a procurar e conseguir vaga), saúde (posto de saúde), mercado e lazer (ir à praia). |
| Reconhecimento da Política Pública | É uma “evolução total de Maricá” e um retorno dos impostos. Os moradores demonstram orgulho cívico e desejam que a política seja “implementada no país todo”. |
2. O Desafio: Onde o Sistema Precisa de Ajustes (8,52%)
Um grupo menor de usuários classificou o serviço como “regular”. Embora sejam a favor da gratuidade, eles apontam falhas causadas pelo sucesso do programa:
| Área Crítica | Reclamação do Usuário | Sugestão |
| Operação e Frequência | Lotação constante e longas esperas (até 1 hora), especialmente nos finais de semana/feriados e horários de pico. | Mais ônibus e mais linhas; diminuir o intervalo entre as viagens. |
| Qualidade e Comportamento | Falta de educação de motoristas e passageiros (vandalismo). Lotação que compromete o conforto de idosos. | Melhorar o treinamento dos motoristas e a manutenção/limpeza dos ônibus. |
| Críticas Estruturais | Lotação causada por “gente andando à toa” (pessoas usando para lazer ou turismo). | Lembrando: Lazer é um direito social básico! A Tarifa Zero viabiliza o “direito à cidade” para todos. |
Conclusão do Grupo Regular: A barreira tarifária foi superada. O desafio agora é a Gestão da Demanda, ou seja, colocar mais ônibus para que o sucesso da gratuidade não se traduza em desconforto.
3. As Críticas Negativas e as Sugestões de Mudança (3,38%)
Uma parcela muito pequena dos usuários (3,38%) criticou o programa e sugeriu mudanças radicais:
Restrição de Uso: A principal crítica é que a gratuidade atrai “pessoas de outras cidades” ou aumenta a superlotação no verão. A sugestão é limitar o acesso apenas a moradores de Maricá ou impor um limite diário de viagens.
(Atenção: Limitar o acesso descaracteriza a Tarifa Zero, que se baseia na universalidade.)
Tarifa Simbólica: Sugeriram cobrar um valor mínimo (como R$ 1,00) para “disciplinar o uso” e diminuir a lotação.
Essas críticas mostram a tensão entre o benefício social e os desafios operacionais, mas a alta aprovação do programa indica que o caminho é investir na melhoria da oferta, e não na restrição da gratuidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A política de Tarifa Zero (TZ) em Maricá-RJ consolida-se como um modelo de sucesso, impactando positivamente as três esferas da sustentabilidade: social, econômica e ambiental. Com uma aprovação de 87%, o programa transcende a mera gratuidade.
Inclusão e Equidade
Prioridade aos Vulneráveis: A TZ beneficia majoritariamente a população mais vulnerável: mulheres, pessoas pretas (pretas e pardas) e famílias de baixa renda (até 2 salários mínimos).
Direito de Ir e Vir: Garante o acesso ao trabalho, saúde e lazer, com alta utilização nas linhas mais distantes (Ponta Negra, Ubatiba), promovendo a inclusão territorial.
Desafio: O principal problema é a superlotação nos horários de pico e fins de semana, um desafio gerencial que demanda a expansão contínua da frota.
O Impulso Econômico: Alívio e Fomento
Redistribuição de Renda: A eliminação do custo da passagem funciona como uma renda indireta para a população de baixa renda.
Mudança Modal: 80% dos ex-usuários de carro que migraram para o ônibus gratuito tinham renda de até 2 salários mínimos, confirmando que o custo era o fator limitante.
Economia Local: O dinheiro economizado é redirecionado para o comércio local, fomentando a economia e o emprego na cidade.
Redistribuição de Renda: A eliminação do custo da passagem funciona como uma renda indireta para a população de baixa renda.
Mudança Modal: 80% dos ex-usuários de carro que migraram para o ônibus gratuito tinham renda de até 2 salários mínimos, confirmando que o custo era o fator limitante.
Economia Local: O dinheiro economizado é redirecionado para o comércio local, fomentando a economia e o emprego na cidade.
Mobilidade Sustentável: A TZ induziu mais de 10% dos usuários a abandonar o uso do carro ou da moto.
Benefícios: Isso resulta na redução do congestionamento viário, diminuição de acidentes e queda no potencial de emissões de CO2.
Em Conclusão: O modelo de Tarifa Zero de Maricá é viável e sustentável, priorizando o direito constitucional à cidade e a equidade social. Ele é um exemplo de política pública e um modelo replicável para combater as desigualdades urbanas no Brasil.
REFERÊNCIAS
DIÁRIO DO TRANSPORTE. Tarifa Zero em Paranaguá (PR) completa dois anos com 7,5 milhões de passageiros transportados. 2024. Disponível em: https://diariodotransporte.com.br/2024/03/16/tarifa-zero-em-paranagua-pr-completa-dois-anos-com-75-milhoes-de-passageiros-transportados/. Acesso em: 25 set. 2025.
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IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades. 2022. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br. Acesso em: 20 set. 2025.
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PREFEITURA MUNICIPAL DE MARICÁ. Nossa história. 2025. Disponível em: https://www.marica.rj.gov.br/marica/. Acesso em 09 set. 2025.
PREFEITURA MUNICIPAL DE MARICÁ. Maricá tem crescimento populacional recorde de 54,87%. 2023. Disponível em: https://www.marica.rj.gov.br/noticia/marica-tem-crescimento-populacional-recorde-de-5487/. Acesso em 2 set. 2025.
RODRIGUES, T. S. S. R. Maricá: transformações urbanas de um município petro-rentista. Revista Continentes (UFRRJ), ano 11, n. 23, 2023 (ISSN 2317-8825). Disponível em: file:///C:/Users/neiva/Downloads/442-1-1649-1-10-20240216.pdf. Acesso em: 9 set. 2025.
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